Foi uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto. Tornou-se uma das figuras mais discutidas da história após a divulgação póstuma do Diário de Anne Frank (1947), no qual documentou suas experiências enquanto vivia escondida em cômodos ocultos de uma empresa durante a ocupação alemã nos Países Baixos na Segunda Guerra Mundial. Desde então, passou a ser referida como um “símbolo da luta contra o preconceito” e teve sua história servindo como base para diversas peças de teatro e filmes ao longo dos anos. Em 1999, foi contemplada como uma das pessoas mais importantes do século XX em uma lista organizada pela revista Time.

Com o crescente número de manifestações antissemitas na Alemanha em 1933, um resultado da ascensão do Partido Nazista ao governo alemão, a família de Frank começou a temer em continuar no país, mudando-se no ano seguinte para Amsterdã. Em maio de 1940, após a invasão nazista aos Países Baixos, aumentaram gradativamente as perseguições aos judeus, além de terem sido criadas leis que os proibiam de frequentar diversos estabelecimentos. Dois anos depois, a família decidiu se esconder em compartimentos secretos de um edifício comercial, dividindo-o com mais quatro amigos. Em 4 de agosto de 1944, o grupo foi traído misteriosamente e teve a localização do esconderijo revelada para a Gestapo, acabando por serem transferidos para diversos campos de concentração. Em companhia de sua irmã, Margot Frank, a jovem foi transportada até Bergen-Belsen onde, provavelmente, morreram vítimas de tifo epidêmico em um dia desconhecido de fevereiro ou março de 1945.

Após o final da guerra, o único sobrevivente do grupo foi o pai de Anne, Otto Frank, que retornou para Amsterdã e descobriu que o diário da filha havia sido salvo por Miep Gies, uma das funcionárias da empresa que havia ajudado a família durante a vida em esconderijo. Otto publicou o diário em 1947 e, desde então, foi traduzido para mais de 70 línguas e comercializou cerca de 35 milhões de unidades em todo o mundo. Além disso, autores têm reconhecido o impacto do livro sobre a humanidade ao longo dos anos, sendo referido como fonte de incentivo para políticos como Nelson Mandela e Eleanor Roosevelt. Em 1960, foi inaugurado o museu Casa de Anne Frank, ponto turístico que tem atraído mais de 1.2 milhão de visitantes anualmente.

Annelies Marie Frank, nasceu no dia 12 de junho de 1929 em Frankfurt, Prússia, na República de Weimar, sendo a última filha de Otto Heinrich Frank (1889–1980) e Edith Holländer-Frank (1900–1945). Sua irmã mais velha era Margot (1926–1945). As famílias Frank eram judeus liberais, ou seja, não seguiam todos os costumes e tradições do Judaísmo; desta forma, viviam em uma comunidade assimilada com outros cidadãos judeus e não judeus de diversas religiões.  Edith e Otto eram pais dedicados, demonstravam interesse principal em atividades acadêmicas e possuíam em sua residência uma extensa biblioteca; além disso, costumavam incentivar suas filhas a lerem desde cedo.  
O patriarca da família era um veterano de guerra, tendo servido o Exército Imperial Alemão na Primeira Guerra Mundial; após sua atuação na Batalha de Cambrai, foi promovido a tenente. Após a guerra, Frank e seus irmãos assumiram a propriedade de um banco de negócios na cidade que anteriormente pertencia à seu pai, de onde tirava a maior parte da renda da família, mas o negócio entrou em declínio no início da década de 1930 como um resultado da Grande Depressão.

Em março de 1933, após o Partido Nazista sair vitorioso na eleição federal e seu líder, Adolf Hitler, ter sido nomeado Chanceler da Alemanha, começaram a ocorrer manifestações antissemitas massivas no país, fazendo com que a família Frank começasse a questionar a possibilidade de emigração. Inicialmente, Edith se mudou com as filhas para a casa de sua mãe, Rosa Holländer, localizada em Aachen, cidade que faz fronteira com a Bélgica e os Países Baixos.

 Otto permaneceu em Frankfurt, mas após receber uma proposta de iniciar uma companhia em Amsterdã, decidiu se mudar para organizar o negócio e arrumar acomodações para sua família. Após iniciar uma filial da Opekta Works, especializada em comercialização da pectina — ingrediente usado na preparação de geleias —, ele encontrou um apartamento em Rivierenbuurt, bairro onde a maioria dos judeus de origem alemã haviam se estabelecido. Edith e Margot foram de encontro ao patriarca da família em dezembro de 1933; Anne, por outro lado, permaneceu com a avó até fevereiro de 1934. A família Frank fez parte do grupo de 300 mil judeus que deixaram a Alemanha entre 1933 e 1939.


Em Amsterdã, as crianças foram matriculadas em escolas: Margot foi para uma instituição pública, enquanto Anne foi para um instituto que praticava o Método Montessori — técnica projetada por Maria Montessori e que foi expressamente proibida no início do Terceiro Reich. Apesar dos problemas iniciais com a língua neerlandesa, Margot se mostrou uma boa aluna com habilidades em aritmética, enquanto Anne se mostrava melhor em história, além de apreciar ler e escrever.  Mais tarde, uma de suas colegas de classe, Hanneli Goslar, relembrou que a jovem escrevia com frequência, embora ela protegesse seu trabalho e se recusasse a discutir sobre o conteúdo de sua escrita.  As irmãs Frank possuíam personalidades distintas; Margot era educada, tímida e estudiosa, enquanto Anne era sincera, energética e extrovertida.

No início de 1942, Anne lidou com o falecimento de sua avó, Rosa Holländer, e começou a frequentar uma instituição de ensino destinada apenas para judeus, passando a ser proibida de ter contato com crianças de outras etnias.  Em seu aniversário de treze anos, em 12 de junho, foi presenteada por seus pais com um livro de autógrafos que havia demonstrado interesse anteriormente enquanto passava por uma vitrine; encadernado com um tecido xadrez em vermelho e branco, o material era composto por um pequeno cadeado em sua parte frontal. Anne decidiu que o usaria como diário, nomeando-o como “Kitty”, escrevendo pela primeira vez em 20 de junho; embora suas primeiras anotações fossem relacionadas aos aspectos mundanos de sua vida, discutia também sobre mudanças no bairro onde residia, além de listar as diversas restrições impostas sobre a comunidade judaica pelo governo de ocupação nos Países Baixos.  Além disso, esboçou em algumas passagens o sonho em tornar-se uma atriz, destacando que assistir filmes era um de seus passatempos favoritos; porém, os judeus foram proibidos de frequentarem as salas de cinema a partir de 8 de janeiro de 1941.

Ao passo em que as perseguições aos judeus tornavam-se cada vez mais frequentes, Otto Frank começou a planejar a mudança de sua família para cômodos ocultos do edifício comercial onde funcionava as instalações de sua filial da Opekta Works. No entanto, em 5 de julho de 1942, Margot Frank recebeu uma notificação do Escritório Central de Emigração Judaica ordenando que ela se dirigisse para um campo de concentração, o que fez com que os planos da família fossem adiantados.  Após ser informada do esconderijo, Anne entregou um livro, um jogo de chá e uma lata de bolas de gude para sua vizinha, Toosje Kupers, dizendo: “Estou preocupada com minhas bolas de gude, porque tenho medo que elas caiam em mãos erradas. Você poderia guardá-las para mim por um tempo?”.  Além disso, a família Frank deixou um bilhete pedindo que os Kupers adotassem o gato da família, Moortje;  em um dos trechos do recado, foi plantada pistas falsas que sugeriam que eles haviam se mudado para a Suíça, onde residiam alguns dos parentes de Otto.

Na manhã de 6 de julho de 1942, a família Frank foi em direção ao esconderijo;  ao deixar o apartamento, foi criado um estado de desordem nos cômodos para que fosse passada a impressão de que eles haviam deixado o local de forma repentina.  Como os judeus eram proibidos de utilizarem transportes públicos, eles precisaram caminhar quatro quilômetros para chegarem até as instalações da companhia   além disso, para não serem pegos carregando malas, vestiram diversas camadas de roupas para que conseguissem transportar o maior número de peças possíveis até a nova moradia.  O Anexo Secretoera formado por acomodações ocultas de três andares, com dois quartos pequenos, bem como um banheiro no primeiro andar; sua parte de cima era composta por uma grande sala, com outra menor ao lado — a partir desta menor, havia uma escada que levava em direção ao sótão.  Para garantir que o lugar permanecesse desconhecido, sua porta de entrada foi coberta por uma estante de livros que fazia parte de um dos escritórios da Opekta Works.

Entre os funcionários da empresa, apenas Miep Gies, Victor Kugler, Johannes Kleiman e Bep Voskuijl possuíam conhecimento sobre a existência das acomodações ocultas, auxiliando a família com alimentos e outras de suas necessidades rotineiras.  Apesar de Jan Gies e Johannes Hendrik Voskuijl não serem funcionários, faziam parte do círculo de confiança dos Frank e desempenharam papéis importantes na sobrevivência da família, principalmente no que dizia respeito aos negócios e informações sobre os desenvolvimentos da guerra e notícias sobre o cenário político.  Em algumas passagens do diário, Anne reconheceu a coragem e dedicação do grupo, bem como seus respectivos esforços para mantê-los confiantes durante os momentos de maior perigo. Era de conhecimento dos ajudantes que, se descobertos, poderiam enfrentar a justiça e até serem condenados a pena de morte por abrigarem judeus.

Ao passar do tempo no esconderijo, Anne aprimorou sua escrita e passou a examinar sua relação com membros da família, além de enfatizar as fortes diferenças de personalidades de cada um deles.  Particularmente, ela se sentia mais próxima emocionalmente de seu pai, Otto Frank, que mais tarde avaliou: “Eu tive um melhor [relacionamento] com Anne do que com Margot, que era mais próxima de sua mãe. A razão para isso talvez seja porque ela raramente mostrava seus sentimentos e não precisava de tanto apoio por não sofrer de mudanças de humor como Anne”. As irmãs Frank desenvolveram um relacionamento mais próximo do que havia existido entre elas antes do período de confinamento no Anexo Secreto; por outro lado, Anne costumava expressar ciúmes de sua irmã mais velha, principalmente quando membros do grupo criticavam sua falta de gentileza e tranquilidade, principalmente quando comparada às características da personalidade de Margot.  Ao passo em que Anne amadurecia, as irmãs foram capazes de confiarem uma na outra; em 12 de janeiro de 1944, ela escreveu no diário que “Margot estava muito mais agradável” e que caminhava para se tornar uma “verdadeira amiga”.

Em diversas passagens do diário, Anne escreveu sobre as dificuldades em seu relacionamento com a mãe, Edith Frank, destacando seu sentimento ambivalente em relação à ela.  Em 7 de novembro de 1942, descreveu o “desprezo” que sentia por sua mãe e a sua incapacidade de “confrontá-la com seu descuido, seu sarcasmo e sua dureza de coração”, concluindo posteriormente que Edith não significava “uma mãe para [ela]”. Por outro lado, em uma revisão sobre trechos anteriores de seu diário, ela demonstrou vergonha por sua atitude radical: “Anne, você realmente demonstrou ódio, oh Anne, como pôde?”.  A partir desse momento, passou a compreendeu suas diferenças e ponderou que as brigas não passavam de “mal-entendidos”, resultados de atitudes de ambas. Além disso, percebeu que isso aumentava o sofrimento de Edith; com essa percepção, passou a tratá-la com um grau de tolerância e respeito por sua figura como mãe.

Embora as irmãs Frank estivessem escondidas, continuaram desempenhando seus estudos e esperavam retornar para a escola assim que a guerra terminasse.  Durante o período no esconderijo, Margot realizou um curso a distância de taquigrafia usando o nome de Bep Voskuijl, recebendo notas altas por seus esforços.  A maior parte do tempo de Anne foi gasto lendo e estudando, além de escrever e editar (após março de 1944) seu diário com regularidade.  Além de narrar eventos à medida em que eles ocorriam, ela descreveu seus sentimentos, suas crenças, sonhos e ambições, assuntos que pensava não poder compartilhar com mais ninguém.  Após amadurecer, sua confiança como escritora aumentou gradativamente, passando a escrever sobre assuntos mais abstratos como sua crença em Deus e como ela definia a natureza humana.

Em 3 de setembro de 1944, integrantes do Anexo Secreto fizeram parte do grupo que foram deportados para o que seria o último transporte do campo de concentração de Westerbork para o de Auschwitz, chegando após uma viagem de três dias; no mesmo trem, estava Bloeme Evers-Emden, natural de Amsterdã, que iniciou uma amizade com Anne e Margot Frank na instituição de ensino para judeus em 1941.  Bloeme relembra ter visto com regularidade as irmãs e Edith Frank em Auschwitz,  sendo entrevistada diversas vezes para relatar suas memórias sobre elas no campo de concentração.

Após o desembarque em Auschwitz, a Schutzstaffel forçou uma divisão entre homens, mulheres e crianças, com Otto Frank sendo separado do restante de sua família.  Após uma avaliação inicial, os que foram considerados aptos para o trabalho foram admitidos, enquanto os inaptos para cumprirem as tarefas do campo foram imediatamente executados; em relatórios divulgados, dos 1.019 passageiros do trem, 549 — incluindo todas as crianças menores de quinze anos — foram enviados para as câmaras de gás. Anne, que havia completado quinze anos três meses antes, foi uma das pessoas mais jovens poupadas da morte que haviam chegado naquele transporte.  Posteriormente, ela foi informada de que mais da metade dos passageiros haviam sido mortos nas câmaras de gás após o desembarque e nunca teve conhecimento de que todo o grupo do Anexo Secreto havia sido selecionado para executarem o trabalho forçado.  Imediatamente, ela pensou que seu pai, Otto Frank — com mais de cinquenta anos e não particularmente robusto —, teria sido executado após a separação.

Em companhia de todas as mulheres e garotas aptas para o trabalho do campo, Anne foi forçada a se despir para ser “desinfetada”, teve sua cabeça raspada e foi tatuada com um número de identificação em seu braço.  Durante o dia, elas eram usadas para o trabalho escravo, forçadas a carregar pedras e cavar rolos de grama; à noite, eram amontoadas em barracas superlotadas.  Mais tarde, algumas testemunham relatam que Frank se tornou uma garota retraída e triste, principalmente quando viu crianças serem levadas para as câmaras de gás; outros, no entanto, narram que ela demonstrava com frequência uma postura forte e corajosa.  Sua personalidade extrovertida e confiante permitiu que obtivesse rações extras de pão para sua mãe e irmã.  Em campos de concentração, as doenças tornavam-se cada vez mais frequentes; em pouco tempo, a pele de Anne foi gravemente infectada pela sarna.
 As irmãs Frank precisaram ser transferidas para a enfermaria, local em um estado de escuridão e infestado por ratos e camundongos.  Edith parou de comer, guardava cada pedaço de comida para suas filhas, passando alguns alimentos para elas por um buraco feito na parede nos fundos da enfermaria.  Em outubro de 1944, Anne, Margot e Edith foram selecionadas para embarcar em um trem com destino à um campo de trabalho na Alta Silésia; por outro lado, Anne foi proibida de se juntar ao grupo por não ter se recuperado da infecção e, desta forma, sua mãe e irmã decidiram permanecer em Auschwitz.

Entre outubro e novembro de 1944, começaram as seleções de mulheres para serem realocadas para o campo de concentração de Bergen-Belsen. Mais de 8 mil mulheres, incluindo Anne, Margot e Auguste van Pels, foram transportadas;  Edith Frank, no entanto, ficou para trás e morreu de fome.  Ao passo em que a população em Bergen-Belsen aumentava, foram erguidas tendas para acomodarem a abundância de prisioneiros; no mesmo período, as doenças no campo se tornavam cada vez mais frequentes.  Em Bergen-Belsen, Anne se reuniu brevemente com duas amigas, Hanneli Goslar e Nanette Blitz, que estavam confinadas em outra seção.  Ambas sobreviveram à guerra e discutiram sobre as breves conversas que tiveram com a jovem através de uma cerca.  Blitz descreveu Anne como “careca, magra e trêmula”;Goslar, por sua vez, observou que Auguste van Pels estava com elas e cuidava de Margot, naquele momento gravemente doente.  Blitz e Goslar relembram que Anne acreditava que seus pais estavam mortos e, por essa razão, ela não queria mais viver.  Mais tarde, Goslar estimou que seus encontros com Frank ocorreram no final de janeiro ou início de fevereiro de 1945.

No início de 1945, uma epidemia de tifo se espalhou por todo o campo de concentração, matando cerca de 17 mil prisioneiros.  Outras doenças, incluindo febre tifoide, também eram frequentes.  Devido à essas condições, não é possível determinar o que causou a morte de Anne; testemunhas declaram que Margot caiu de sua cama em seu estado debilitado e foi morta pelo impacto — sua irmã faleceu um dia depois.  As datas exatas das mortes das irmãs Frank são desconhecidas.  De acordo com testemunhas oculares do campo de concentração de Bergen-Belsen, elas começaram a exibir sintomas de tifo a partir de 7 de fevereiro; conforme levantado por autoridades de saúde, infectados pela doença que não se tratam podem falecer até doze dias após o início dos sintomas.

 Em 15 de abril de 1945, prisioneiros do campo foram libertados pelo Exército Britânico; posteriormente, o local foi queimado para impedir a propagação das doenças.  Entre outros mortos e executados, Anne e Margot foram enterradas em valas comuns de um local desconhecido.  Depois da guerra, estimou-se que apenas 5 mil dos 107 mil judeus deportados dos Países Baixos sobreviveram ao Holocausto.

Após o final da guerra, Otto Frank foi o único membro sobrevivente do Anexo Secreto.  Ao retornar para os Países Baixos, foi amparado por Jan e Miep Gies — amigos que o ajudaram durante o tempo em esconderijo — enquanto tentava localizar sua família.  Ele soube da morte de sua esposa em Auschwitz, mas manteve-se esperançoso em relação a sobrevivência de suas filhas. Depois de algumas semanas de busca, descobriu que Anne e Margot também haviam falecido; ao mesmo tempo, tentou localizar o destino dos amigos de suas filhas e soube que diversos deles haviam sido assassinados.  Sanne Ledermann, frequentemente mencionada no diário de Frank, foi morta numa câmara de gás na companhia de seus pais; sua irmã, Barbara, uma amiga próxima de Margot, foi a única sobrevivente da família.  Entre outros sobreviventes da guerra, estavam os parentes de Otto e Edith que, anteriormente, haviam fugido da Alemanha em direção à Suíça, Reino Unido e Estados Unidos durante a década de 1930.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anne_Frank